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	<title>#españa2017 &#8211; JOSÉ SÉRGIO</title>
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		<title>UM SONHO COM DUAS ESTRELAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[josesergio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Aug 2017 08:40:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Podia ter tido um sonho destes. Um sonho em que passava a tarde a pescar, e à noite tinha em cima da mesa, com um garfo de um lado e uma faca do outro, os frutos da minha paciência.  Ou em que mergulhava de cabeça  num conto de fadas e tinha em cima da mesa, com um garfo de um lado e uma faca do outro, o mar, o rio e a montanha. No dia anterior lá estava lá como um bom pé-rapado dentro de uma tenda num parque de campismo, algo que faço com muito gosto. Mas não há dois dias iguais! Acordei e a minha companhia de viagem disse-me: “Vamos ter mais um dia de estrada, mas este será diferente, não  nos esqueceremos!”. Lá fomos nós, e às tantas, após uma encruzilhada, vimo-nos como que a descer um desfiladeiro. Cheguei a pensar que íamos parar no fim do mundo. Quanto mais descíamos, mais serpenteava a estrada. E quando menos esperávamos (ou quando já não esperávamos…) um  lugar meteu-se na nossa estrada, estávamos lá, tínhamos finalmente chegado ao destino. Casa Marcial, sim, lá estávamos nós. No jardim junto ao parque de estacionamento por onde entrámos, gente muito aprumada naquilo [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Podia ter tido um sonho destes. Um sonho em que passava a tarde a pescar, e à noite tinha em cima da mesa, com um garfo de um lado e uma faca do outro, os frutos da minha paciência.  Ou em que mergulhava de cabeça  num conto de fadas e tinha em cima da mesa, com um garfo de um lado e uma faca do outro, o mar, o rio e a montanha.</p>
<p>No dia anterior lá estava lá como um bom pé-rapado dentro de uma tenda num parque de campismo, algo que faço com muito gosto. Mas não há dois dias iguais!</p>
<p>Acordei e a minha companhia de viagem disse-me: “Vamos ter mais um dia de estrada, mas este será diferente, não  nos esqueceremos!”.</p>
<p>Lá fomos nós, e às tantas, após uma encruzilhada, vimo-nos como que a descer um desfiladeiro. Cheguei a pensar que íamos parar no fim do mundo. Quanto mais descíamos, mais serpenteava a estrada. E quando menos esperávamos (ou quando já não esperávamos…) um  lugar meteu-se na nossa estrada, estávamos lá, tínhamos finalmente chegado ao destino. Casa Marcial, sim, lá estávamos nós.</p>
<p>No jardim junto ao parque de estacionamento por onde entrámos, gente muito aprumada naquilo que parecia ser um cocktail. Uma empregada do restaurante dirige-se a nós (ou melhor, à nossa roupa já batida por uns dias de praia e de campismo), isto depois de com muita classe e subtileza nos ter tirado as medidas de cima a baixo: “Posso ajudar? Têm alguma reserva?” E eu despenteado e suado, de calções e <em>t-shirt</em>, no registo o mais confortável possível para uma condução de algumas horas.</p>
<p>Passámos por vários controlos.</p>
<p>-Vou ver se ainda temos lugar</p>
<p>-Aqui têm a carta para irem vendo os nossos dois menus antes de subirem</p>
<p>-O preço de cada menu é por pessoa</p>
<p>-Se escolherem a versão reduzida não podem escolher dois menus diferentes</p>
<p>E, claro, se lá chegámos é porque já tinha havido toda essa ponderação.</p>
<p>Continuando. Estávamos no lugar certo, num lugar magnífico, noutro mundo. E pela frente o menu de oito pratos – porque escolhemos a versão reduzida… – com que um chefe com duas estrelas Michelin quis homenagear o mar e a montanha das Astúrias onde cresceu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>MENÚ RAICES</em></p>
<p><em>Crujiente de algas con gel de limon</em></p>
<p><em>Ostras con Jugo de Codium y Calamansi</em></p>
<p><em>Lengua de Bacalao, Kimchi, Cebolleta y Ajo Negro</em></p>
<p><em>                  Hoja de Parra</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Yema de huevo, maíz y jugo de salazón</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Almeja, Licuado de Perejil y Algas</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Ventresca de Bonito con Piel de Sardina</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Ensalada de Merluza con su holandesa y Huevas Secas</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Lengua con Mole de Lentejas y Garrapiñados</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Arroz con Pitu de Caleya</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Arroz con leche a la manera tradicional</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>Tociníllo de Muscovado, Manzana y Aceituna Negra</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Com uma pequena ressalva em jeito de rodapé: “<em>El pan se servirá a partir de la yema de huevo</em>”)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Aquilo que para mim foi um <em>workshop</em> começou com comida servida em cima de raízes, de troncos de árvore, de enormes conchas, de cabeças de bacalhau e de sei lá mais o quê!</p>
<p>O corrupio de empregados, entre põe pratos, tira pratos, muda de talheres, dobra guardanapos… Antes de cada prato, uma breve descrição sobre como o chefe transferiu para cada criação a sua relação com aquela natureza e aquela região.</p>
<p>A sucessão de pratos nunca mais parava. E quando pensávamos que tinha acabado, em geral com o clássico</p>
<p>&#8211;<em>Postre</em>?</p>
<p>-Café!</p>
<p>, uma “pequena” surpresa&#8230; Um sortido de docinhos tradicionais das Astúrias e um licor de avelã num tubo de ensaio. Como se ainda tivéssemos barriga…</p>
<p>Tudo para lá de bom. Afinal estávamos no restaurante (e casa de família!) de Nacho Manzano. E, pelo meio de todos aquele sabores nunca antes imaginados, houve direito a visita do próprio chefe à mesa, queria “a nossa aprovação” do novo prato em estreia naquele dia: um casamento entre três dos peixes mais gordos do Cantábrico, a sardinha, a anchova e o atum bonito.</p>
<p>Nem sequer sei que palavras me saíram, isto em relação ao prato; depois, não me lembro bem, houve ainda alguns segundos de conversa e só depois de Nacho Manzano desaparecer da nossa vista pensei em voz alta:</p>
<p>“A <em>selfie</em>!”, esqueci-me de pedir uma <em>selfie</em> com o chefe.</p>
<p>Talvez devesse ter tentado combinar uma sessão para lhe fazer um retrato, um “retrato criativo” a combinar com os seus pratos criativos. Mania de que sou fotógrafo! Mas em vez de ficar gravado num cartão de memória este dia vai ficar tatuado na minha própria memória.</p>
<p>Ah, e trouxe comigo um exemplar do menu, talvez para emoldurar. E para ter a certeza de que o meu sonho com duas estrelas foi mesmo realidade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Obrigado!)</p>
<p>&nbsp;</p>
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